domingo, 5 de junho de 2011

Sobre Amor e Panos de Chão

Eles seriam o casal perfeito. Mais de 40 anos juntos. Os dois setentões, os dois gostam de dançar, os dois adoram um programa fora de casa, os dois adoram receber a família e os amigos.

Gostam dos mesmos gêneros musicais, compartilham preferências literárias, dividem responsabilidades religiosas. É claro que, de tempos em tempos, se arranham. Mas sempre equacionam.

Tudo isso seria maravilhoso, quase perfeito, como eu disse, se não fossem os panos de chão. Sim, os panos de chão. Ela deu para ter ciúmes deles.

Com um trapinho nas mãos, estremeço ao ouvir "o que você está fazendo com este pano aí?". Ixe, pano errado, dez minutos de bronca.

Mexer nos panos de chão tornou-se um negócio arriscado. É preciso memória, é precíso perícia, pois um descuido e zás. Trapo incorreto.

Mas o amor é sábio. Na visita seguinte, tensa por ter derramado qualquer coisa e paralisada de medo de escolher o famigerado trapo errado, ouço um sussurro do marido apaixonado: "psiu, psiu, venha ver! Pode pegar qualquer um desses... eu agora tenho meus próprios panos de chão.".

A paz volta a reinar... O amor é lindo, e mantê-lo aceso às vezes custa bem pouco. Uns cinco ou seis sacos de linhagem.

domingo, 15 de maio de 2011

Empregaço

Quando eu trabalhava como voluntária em uma instituição que acolhe crianças com paralisia cerebral e mostrava a alguém o site, ou levava para conhecer o trabalho, geralmente as pessoas diziam: "como você é caridosa" ou "eu não aguento", "eu não tenho coragem". São duas reações quase imediatas: pena e medo.

Também senti as duas em meu primeiro contato. E a cada vez em que recebo a bênção de poder trabalhar como voluntária, vejo o quanto a realidade é diferente disso.

O medo é inerente a todo desafio. Vem junto com o novo, o desconhecido. O voluntariado é um novo trabalho, como qualquer outro, então é de se esperar que traga um friozinho no estÔmago mesmo. Acontece que a impressão que eu tenho é que o "chefe", seja ele quem for, providencia uns EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) que nenhum outro trabalho tem.

Eu, por exemplo, ganho óculos cor-de-rosa. Quando eu faço trabalho voluntário, simplesmente não enxergo dor, não enxergo sofrimento. Ontem, no Hospital da Baleia, não dava para ver sofrimento naquelas carinhas que riam dos meus óculos ridículos enquanto tomavam quimio na veia. Não dava para encontrar infelicidade naqueles olhinhos curiosos que xeretavam minha bolsa enorme, cheia de bobaginhas: aviõezinhos de plástico, pastas de dente com sabor de fruta, pulseiras coloridas, aneis com pedras enormes e brilhantes. Também não dava para ver a dor que devia passar por dentro do coração das mães que sorriam ao ganhar um sabonete cheiroso, pois não tinham levado nada consigo - pensavam que o filho iria apenas fazer um exame, e acabaram ficando, às vezes por meses.

Agora falemos sobre a pena. É uma arrogância absurda, sem fundo, essa nossa mania de pensar que, porque alguém está em uma situação física, financeira, em qualquer aspecto, diferente da nossa, essa pessoa está pior que nós. Uma vez fui a um hospital com um amigo sensitivo, dar um passe em uma menininha que estava agonizando. Saindo de lá, ele disse "quem você pensa que tomou o passe? Pois é, fomos nós. E quem deu foi ela". Em momentos como esse, a gente se sente ridículo em ser tão prepotente. A grande verdade é que muitas das pessoas que estão sofrendo em hospitais, asilos, orfanatos, têm o espírito muito mais forte e elevado que o nosso. Ontem, cheguei a uma enfermaria e notei que uma mocinha de seus 14 anos, deitada lá no fundo, me fitava com olhos sorridentes. Ela parecia dizer "vem cá, estava te esperando, venha ganhar um sorriso". Dava vontade de ficar perto dela, trocando ideias sobre a oitava série que ela havia deixado lá fora, comentando como estava complicado encontrar na bolsona um presente para ela, que não era mais criança... cada palavra dela vinha com um sorriso maior, e meu coração sorria com ela.

Se a gente conseguisse compreender que essas pessoas têm muito mais a nos dar que nós a elas, se conseguíssemos traduzir em números o quanto nossa alma fica leve e alegre depois desse contato, nenhuma instituição precisaria convidar voluntários. Racionalmente, estaríamos todos na fila, esperando a nossa vez de receber energia.

Como eu disse lá em cima, voluntariado é um trabalho como qualquer outro. Só que paga muito mais e melhor.


terça-feira, 3 de maio de 2011

A Galinha e o Mico




Mais uma da minha irmãzinha. Que vai acabar torcendo o meu pescoço porque resolvi publicar as peripécias dela.

Antes, cumpre esclarecer que Val adora enfeites de cozinha com galinhas. Tem tudo: luvas, bandeja, tigelas, porta-guardanapos, pano de prato...

Domingo de manhã, concerto da filarmônica na Praça da Liberdade. Astral delicioso, pessoas queridas, bichinhos, molecada, todo mundo se acabando.

Daí passa uma menininha, pequenininha, muito fofinha e bem-produzida, usando um vestidinho lindo, bordadinho com... galinhas. Pois a pessoa nem pestanejou. Apontou pra mocinha, deu um sorriso enorme e disse em alto e bom som: "Olha, Ana, igualzinho ao meu pano de prato!!!!".

... quisera um pano de prato pra cobrir minha cara de vergonha.










domingo, 24 de abril de 2011

Santa Semana





Ovos de chocolate à parte, a gente morre e ressuscita várias vezes.

Morre quando sofre e não tem forças para olhar para a frente e ver que falta pouco para que a subida termine. Nasce quando finalmente entende o porquê de estar sofrendo e evolui.

Morre quando se esquece e nasce quando se lembra de que a tristeza é o dedo de Deus cutucando seu ombro pra ver se você finalmente se toca de que algo precisa mudar.

Não me lembro da última vez em que vivi tão nitidamente uma Semana Santa. E olha que procissão nessa vida não me faltou...

Dessa vez não teve procissão. Mas teve a angústia do calvário. Quinta Santa. Sexta da Paixão. Um super sábado de Aleluia, com um estalo de luz em uma conversa de cozinha - a milésima de tantas nesta semana, e o nariz enfiado numa taça de Carignan.

Ressuscitei hoje com a nítida sensação de que o caminho certo é simplesmente permitir-se não saber qual é o caminho e deixar que ele se faça.

O antigo pode ser novo, o impensável se torna pensável. Tudo muda de cara. Novas ideias, novas possibilidades, cenários, velhos-novos lugares. Passado e futuro em forma de presente.

"Olhai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e, no entanto, nem Salomão em toda sua glória se cobriu como um deles."











* Last, but not least: AMO vocês!

domingo, 17 de abril de 2011

Toda forma de amor




Minha irmã não suporta feijoada. Gosta de feijão, gosta de linguiça, de lombo... mas não come misturado. Cismou.


Acontece que minha mãe faz a melhor feijoada do mundo. E light. A gente passa o ano todo torcendo pra fazer frio, até chegar o sábado sagrado. Normalmente só um ao ano.


Ontem foi o glorioso dia. Nem fez frio. Mas não tem problema, imagine, quem é São Pedro pra manter a gente longe da panelinha de pressão.


Todo mundo se acabando e minha irmã lá, no feijãozinho, catando, catando.


Ao final, ela olha minha mãe com uma carinha enternecida e diz: "ô mãe, você sabe que eu não gosto de feijoada... mas, se eu gostasse, a sua estaria maravilhosa!".